quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Preocupação crônica



Estamos no último dia de novembro. Quando menos esperarmos, estaremos no último dia do ano. É chegado o momento de reunir amigos e familiares e fazer aquele balanço do que foi positivo e negativo no ano de 2011, traçar novas metas, sonhar e se preparar porque em 2012 isso aqui vai pegar fogo.

É um ano eleitoral e o que vai ter de desconhecido na tua porta falando dos projetos que tem para Boqueirão não está no script. O que vem de vereador "furreca" falar da importência do voto consciente, de que você pode contar com ele para o que precisar etc e tal... Ai, meu Jesus Cristo misericordioso! Só de pensar já estou enojado.

Contudo há, evidentemente, aqueles que fazem alguma coisa (mesmo que mínima). E o meu objetivo com esse texto não é falar de vereadores bons; nem dos postulantes a prefeito. Eu gostaria de falar de vocês. Sim, vocês leitores, e dos meus conterrãneos boqueirãoenses.

Pense bem. Quando chega ano eleitoral, o que tem de amizade desfeita, vizinho que insulta vizinho, parentes que se afastam, "meimundo" de colegas que olham falsamente para você, nossa! Eu não entendo como as pessoas podem ser tão fracas.

E desde agora estou preocupado com isso, pois sei que colegas e amigos vão andar se estranhando. Eu só espero que não fiquem intrigados eternamente por causa de uma coisa tão pequena. Sei que seu voto vale muito: um saco de cimento, meio milheiro de tijolos, dois metros de massame, um botijão de gás, um emprego de auxiliar de gari, um vale-refeição ou um vale-pinga, mas meu amigo, seu voto não tem o valor de uma amizade.

Depende de você. Você pode crescer e amadurecer como cidadão, ou pode transformar essa preocupação crônica em uma inimizade crônica.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

O corredor e a luminária .

Era uma ensolarada tarde de novembro, quando aquele sedentário resolve pôr um tênis e caminhar um pouco. Fez um aquecimento leve - aqueles saltinhos de corredor, com uns chutes rápidos -, fez um breve alongamento e começou. Um passo, depois outro, depois de vários sentiu que dava para exigir um pouco mais do corpo. Correu.

Logo que iniciou a corrida, começou a pensar na vida, no trabalho, no exemplo que poderia dar aos alunos, aos amigos e aos familiares. Envolveu-se com a música que tocava no seu aparelho celular. Aumentou o volume, pôs a mão nos fones de ouvido para conferir se estavam bem ajustados e respirou fundo, começando a apressar o passo. Pois estava quase chegando a reta do balde do açude.

O suor escorria do rosto, os pensamentos fluiam, os passos cada vez mais largos, acelerou um pouco na reta do balde do açude, e ao chegar no fim daquela reta notou algo muito estranho. Parou.


Ficou observando para tentar compreender o que seria aquilo. Uma luminária revoltada que queria se desprender do sistema. Não entendeu e achou um absurdo, pois não é comum as luminárias demonstrarem tamanha personalidade. Resolveu fotografar aquilo e o fez.


Continuou sua corrida e retornou minutos depois para casa. Não conseguia tirar aquela imagem do pensamento. Decidiu que postaria nas redes sociais aquela imagem tão surpreendente. Era coisa muito simples, confessou horas depois, mas aquilo o tirou do senso comum e o projetou para uma esfera de responsabilidades em que repetidamente pensava:
- E se aquilo cair na cabeça de alguém? De uma senhora ou jovem, quem sabe?

Não tardou para dormir. A corrida foi muito cansativa. Estava exausto.

No dia seguinte, voltou a sua rotina costumeira. Fez suas obrigações, conferiu as atividades dos alunos, recomendou atividades e leituras, voltou para casa e tentou tirar da cabeça aquela imagem da luminária que insistia em desligar-se do sistema. De quem seria a responsabilidade por aquela decisão de infringir o sistema? Não sabia a resposta.

Horas mais tarde, resolveu dar continuidade a atividade esportiva que começara no dia anterior. Correu devagar, bem devagar, pois no dia anterior havia exagerado um pouco, já que tinha passado um bom tempo sem fazer atividades físicas regulares. Porém estava decidido a mudar de hábitos. Correu, correu, correu e ao chegar no fim da reta do balde do açude, o que ele vê? O resultado do seu esforço do dia anterior.


Satisfação pessoal e certeza de que, apesar de um simples gesto, conseguiu exercer sua cidadania e fazer o bem aos que são seus companheiros de caminhada. Muito embora nem todos o conheçam. Contudo, ao menos uma coisa ele não vai esquecer. Aquelas palavras da senhora que no dia anterior havia visto ele fotografar aquela luminária:

- Funcionou, hein?

E continuou a corrida...

sábado, 26 de novembro de 2011

Perdoai minha ignorância crônica



Se eu fosse regularmente ao médico, sei que mais dia menos dia ele me diria:

- Olha professor, sua situação é crônica. O senhor é muito ácido. Nada te agrada. Você precisa ser mais um na multidão. Pare com essas ideias de senso crítico que isso não leva ninguém a nada. Vá embora dar seus R$ 0,50 (cinquenta centavos) de aula de gramática.

Contudo, acho que isso está longe de acontecer. Evito esse tipo de especialista. Ou melhor, eles me evitam.

Voltando ao tema do título proposto, tenho sim uma espécie de ignorância crônica: não entendo nada de política, digo, politicalha. Nem me envolvo nessas questiúnculas. São demais para minha capacidade mental. Eu tento ser um sujeito sem expressão, inerte, sem cultura e conhecimento qualquer que possa me dar o título de "sabido". Todavia, de vez em quando surge um mais "ignoranticamente" crônico do que eu. Eles vêm de mansinho pelas redes sociais, tropeçam aqui e ali, escrevem errado acolá - não quero condenar aqueles nobres usuários dos vcs, dos ps dos qs, dos msms ou mesmo dos pqps; pelo contrário, estes estão no seu habitat - (acabou aqui a expressão parentética e retoma o raciocínio anterior. Prossiga...), e acham que podem fazer críticas sem fundamento algum. Nisso, estes tais conseguem despertar o que eu jamais pensaria que tinha adormecido junto a meus dois neurônios e meio: um fiasco de inteligência.

Daí - o que posso fazer? - escrevo estes "textinhos" crônicos para insuflar ainda mais a ojeriza deles. Se é que sabem o significado de insuflar e ojeriza. Ai, ai, ai, Orélio.

Coçeira crônica na garganta



Não posso ficar calado! Claro que não! É quase impossível.

Eu não poderia me calar diante de tamanha desinformação de muitos senhores.

Há alguns dias, alguns fulanos, que supõem saber algo sobre educação, andaram falando que os professores de minha cidade não se preocupam em formar cidadãos e tornar os alunos capazes de pensar e não os dá condições para aumentarem o nível de inteligência. Dias depois, ao verem alguns alunos adotando uma postura critica em face a uma situação de desrespeito contra crianças e adolescente, foram chamados de "oposição". Mas ora veja, "oposição"?

Em primeiro lugar, meus sábios senhores, na política, OPOSIÇÃO refere-se ao partido ou grupo de partidos que intitulam-se contrários ao governo na esfera municipal, estadual ou federal. Como podem seis alunos fazerem OPOSIÇÃO, se ainda não tem nem o título de eleitor, não são filiados a partidos políticos, nem nada? Eles apenas estavam exercendo um direito de expressarem-se livremente.

Em segundo lugar, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional explicita que o Ensino Médio é a "etapa final da educação básica" (Art.36), o que concorre para a construção de sua identidade. O Ensino Médio passa a ter a característica da terminalidade, o que significa assegurar a todos os cidadãos a oportunidade de consolidar e aprofundar os conhecimentos adquiridos no Ensino Fundamental; aprimorar o educando como pessoa humana; possibilitar o prosseguimento de estudos; garantir a preparação básica para o trabalho e a cidadania; dotar o educando dos instrumentos que o permitam "continuar aprendendo", tendo em vista o desenvolvimento da compreensão dos "fundamentos científicos e tecnológicos dos processos produtivos" (Art.35, incisos I a IV). E além disso, visa estimular o aluno a desenvolver competências diversas dentre as quais, cito o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico.

Mas então, queridos senhores, vossas excelências vêm me dizer que foram pessoas mal intencionadas que puseram "besteirinhas" na cabeça desses meninos? Ah, me poupem de tamanha opacidade (achei lindo esse termo).

E o pior ainda está por vir. Começa o interrogatório: - Esse aluno estuda onde? É filho de quem? O pai ou a mãe trabalham onde? Quem é o professor que ensinou que esse infeliz poderia pensar? E por aí vai...

Resultado, o aluno vai odiar o professor por tê-lo feito acreditar que ele tinha voz e poderia exercer seu direito de livre expressão; o pai ou a mãe do menino tomarão aquele "rela"; e o professor, coitado, se não perder o contrato humilhação, vai trabalhar lá no sítio Vaca Mocha.

Para evitar tudo isso, prefere-se passar o ano ensinando substantivo, sujeito e predicado, gênero textual fábula e as capitais dos estados da federação. Pois para muitos, os alunos só precisam saber disso, além da seção em que irão votar, o número do título e da carteira de identidade.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

CONFERÊNCIA MUNICIPAL DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE

Conferência crônica:

Foi a que aconteceu ontem, 23 de novembro de 2011. Eu explico.
Era pra ter sido um evento em que se discutiria ações voltadas à proteção dos direitos da criança e do adolescente. Mas parece não ter saido do modo como haviam planejado.

Principais Sintomas:

Segundo alguns participantes, dentre eles alunos e professores, estes foram alguns dos problemas diagnosticados:

# Atraso;
# Falta de planejamento do dia do evento em si;
# Desorganização;
# Ausência de autoridades
- Não estavam nem o promotor, nem vereadores etc.
- Estavam apenas o Secretário de Educação e a Secretária de ação social.
# Falta de conhecimento lexical para diferenciar "oposição" de "crítica";
# Desequilíbrio emocional por parte de alguns participantes e organizadores;
# Bla-bla-bla pleonástico sobre ações desenvolvidas há 4, 5, 6 e 20 anos.

Solucionando o impasse:

Foram aplicadas doses de bom senso por parte dos alunos participantes, que contribuiram efetivamente para a promoção dos direitos da criança e do adolescente. Eles fizeram valer a sua voz e não participaram apenas balançando a cabeça. Lançaram ideias ótimas, dentre as quais destacamos a criação de grêmios estudantis nas escolas do município e um centro para prática de atividades esportivas diversificadas.
Os alunos ainda agradecem à participação e contribuição do professor Evangelista Sales e do Secretário Eraldo Alves.

Pelos Alunos do 2º ano A e do 3º ano A da Escola Estadual

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A internet e o "emburrecimento"


Hoje cedo dei uma olhadela rápida no conteúdo da revista Carta na Escola, edição n° 61, e o artigo "Burros, muito burros demais", p. 57, me chamou a atenção.

Nesse artigo, Roberto Taddei comenta o livro de Nicholas Carr, "O que a internet está fazendo com nossos cérebros". De imediato pensei: "Novidade? Que nada! Eu já sabia disso há muito tempo. Pois sou professor de língua portuguesa e é muito comum encontrar alunos que, por acessarem muito a internet, acabam desenvolvendo uma preguiça mental enorme, haja vista já acharem tudo pronto e não refletirem sobre o que estão vendo ou lendo. E isso vai ficar impresso nos textos que eles produzem. Uma lástima!"

Todavia, ao me aprofundar na leitura e ao rememorar outros textos já lidos, percebi que o processo não é tão simples assim. Acredito que a internet afeta os cérebros de todos os seus usuários sim, mas de modos diferentes. Os que, segundo o autor, podem ser classificados como "burros" (discordo dessa visão), a internet torna ainda mais "burros". E os que são considerados "inteligentes", a internet dá um upgrade.

Isso acontece em todos os domínios da grande rede. Do mesmo modo como acontecia antes da existencia da internet. Havia os que buscavam os livros e os que os ignoravam, os que olhavam as figuras, os que liam trechos fora de contexto, os que buscavam apenas uma frase de efeito, ou simplesmente andavam com um livro debaixo do braço para parecerem cultos.

Claro que a pesquisa desse americano é muito extensa e seu livro circulará nas academias dos EUA, além de se tornar leitura obrigatória em muitas facudades do Brasil. E quem sou eu para opor minhas "desafinadas" considerações ao brilhante trabalho deste senhor? Mais ainda, concordo com quase tudo o que foi apresentado no artigo. Não li o livro ainda. Contudo quando meu ótimo salário permitir comprá-lo, com certeza andarei com ele ao menos debaixo do braço.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Balaio Cultural 2011



Entre os dias 16 e 20 de novembro deste ano (semana passada), a cidade de Boqueirão-PB recebeu atrações culturais de diversas partes do país.

Foi um Balaio intercultural, na verdade, com dança regional nordestina, country, dança africana, capoeira, ballet clássico, danças gaúchas, teatro, música regional, MPB, literatura, oficinas de leitura e escrita, oficinas de dança e de música, enfim, não dá para acrescentar um et cetera e omitir tanta diversidade que semeou o solo semi-árido do Cariri.

Claro que todo evento desta natureza gera críticas positivas e negativas, desde a organização, a pontualidade, o espaço, o acolhimento do público, a imagem do evento como um todo, a divulgação e, não esquecendo, o feedback que é, a meu modesto entender, o alvo dessa produção toda. E é justamente sobre essa troca entre artista e público que quero tecer alguns fios argumentativos.

Notadamente nosso povo boqueirãoense ainda não aprendeu, após esses 6 anos, desde a realização do primeiro balaio cultural (este foi o 5º ano do evento - é meio complicado explicar agora), o que é um evento cultural e o valor dessas expressões artísticas para a nossa cultura e para a formação do nosso caráter.

Estive, no dia 18, assistindo a uma das apresentações do Balaio Cultural, e na saída encontrei com o ex-prefeito João Fernandes que comentava sobre alguns aspectos desse evento. E em um dado momento, eu disse a ele que "Temos um Balaio cultural, mas o público é de circo". Ele, imediatamente, acrescentou que infelizmente o público do Nordeste ainda é 90% de circo (óbvio que não estou querendo depreciar ou ofender os artistas de circo). Isso me fez refletir um pouco sobre todo esse investimento que os governos federal e estadual vem fazendo em nossa Região e me fez ver que é muito importante que haja, primeiramente, uma reeducação cultural ou, em alguns casos, uma alfabetização cultural para que nosso público deixe de ser "público de oba-oba" e passe a um nível cultural digno de um país realmente em desenvolvimento.

Deixe estar, isso é só um lapso. Voltemos à vida real e ao trabalho nosso de cada dia. O panis et circenses fica pra outra hora.

Da ideia que deu origem a este blog

Olá, amigo leitor.


Como primeira publicação neste modesto sítio, ofereço o relato do que motivou a criar um blog com o título "Crônicas de Professor".
Não faz muito tempo, um grande amigo - com quem partilho ideais, produções escritas e gosto musical - apresentou-me um material de sua autoria em que ele descreve ora de forma humorística, ora em tom mais sóbrio, situações pelas quais ele passa no trabalho e das quais ele tira algum aprendizado (ou simplesmente da muitas risadas com o inusitado). Não sei se estou de alguma forma usurpando sua ideia, mas serviu-me de mote para compartilhar com você, leitor, inúmeras situações pelas quais este professor tem passado.
Sempre que possível, tentarei utilizar-me do gênero "CRÔNICA" para falar da situação "crônica" presente nas escolas brasileiras, nas escolas em que lecionei e na escola em que leciono atualmente, buscando, evidentemente, dentro da ética profissional, mostrar que este não é apenas o problema de um professor de escola pública, mas de muitos (para não dizer de todos).