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terça-feira, 6 de setembro de 2016

MANUEL BANDEIRA - EXERCÍCIO

Questão 1
Leia o poema a seguir para responder a questão que segue.

Não sei dançar
Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.
Tenho todos os motivos menos um de ser triste.
Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria...
Abaixo Amiel!
E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtseff.
Sim, já perdi pai, mãe, irmãos.
Perdi a saúde também.
É por isso que sinto como ninguém o ritmo do jazz-band.
Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu tomo alegria!
Eis aí por que vim assistir a este baile de terça-feira gorda.
(...)
 
(Libertinagem, Manuel Bandeira)

Sobre os versos transcritos, assinale a alternativa incorreta:
(A) A melancolia do eu-lírico é apenas aparente: interiormente ele se identifica com a atmosfera festiva do carnaval, como se percebe no tom exclamativo de "Eu tomo alegria!"
(B) A perda dos familiares e da saúde são aspectos autobiográficos do autor presentes no texto.
(C) A alegria do carnaval é meio de evasão para eu-lírico, que procura alienar-se de seu sofrimento.
(D) O último verso transcrito associa-se ao título do poema, pois o eu-lírico não participa, de fato, do baile de carnaval.
(E) O eu-lírico revela, em tom bem-humorado e descompromissado, ser uma pessoa exageradamente sensível.

Questão 2 (Enem 2011)

Estrada
Esta estrada onde moro, entre duas voltas do caminho,
Interessa mais que uma avenida urbana.
Nas cidades todas as pessoas se parecem.
Todo mundo é igual. Todo mundo é toda a gente.
Aqui, não: sente-se bem que cada um traz a sua alma.
Cada criatura é única.
Até os cães.
Estes cães da roça parecem homens de negócios:
Andam sempre preocupados.
E quanta gente vem e vai!
E tudo tem aquele caráter impressivo que faz meditar:
Enterro a pé ou a carrocinha de leite puxada por um bodezinho manhoso.
Nem falta o murmúrio da água, para sugerir, pela voz dos símbolos,
Que a vida passa! que a vida passa!
E que a mocidade vai acabar.
BANDEIRA, M. O ritmo dissoluto. Rio de Janeiro: Aguilar, 1967.

A lírica de Manuel Bandeira é pautada na apreensão de significados profundos a partir de elementos do cotidiano. No poema Estrada, o lirismo presente no contraste entre campo e cidade aponta para

(A)    o desejo do eu lírico de resgatar a movimentação dos centros urbanos, o que revela sua nostalgia com relação à cidade. 
(B)    a percepção do caráter efêmero da vida, possibilitada pela observação da aparente inércia da vida rural. 
(C)    a opção do eu lírico pelo espaço bucólico como possibilidade de meditação sobre a sua juventude. 
(D)    a visão negativa da passagem do tempo, visto que esta gera insegurança. 
(E)    a profunda sensação de medo gerada pela reflexão acerca da morte.

Questão 3 (Enem 2006)

Namorados
O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
— Antônia, ainda não me acostumei com o seu
[corpo, com a sua cara.
A moca olhou de lado e esperou.
— Você não sabe quando a gente e criança e de
[repente vê uma lagarta listrada?
A moca se lembrava:
— A gente fica olhando...
A meninice brincou de novo nos olhos dela.
O rapaz prosseguiu com muita doçura:
— Antônia, você parece uma lagarta listrada.
A moca arregalou os olhos, fez exclamações.
O rapaz concluiu:
— Antônia, você é engraçada! Você parece louca.

No poema de Bandeira, poeta modernista, destaca-se como característica da escola literária dessa época

(A) a reiteração de palavras para a construção de rimas ricas.
(B) a utilização expressiva da linguagem falada em situações do cotidiano.
(C) a simetria de versos para reproduzir o ritmo do tema abordado.
(D) a escolha do tema do amor romântico, caracterizador do estilo literário dessa época.
(E) o recurso ao dialogo, gênero discursivo típico do Realismo.

Questão 4 (Enem)

 “Poética”, de Manuel Bandeira, é quase um manifesto do movimento modernista brasileiro de 1922. No poema, o autor elabora críticas e propostas que representam o pensamento estético predominante na época.
Poética
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
[...]
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
(BANDEIRAManuel. Poesia completa e prosa. Rio de janeiro: José Aguilar, 1974)

Com base na leitura do poema, podemos afirmar corretamente que o poeta:

(A)    Critica o lirismo louco do movimento modernista.
(B)    Critica todo e qualquer lirismo na literatura.
(C)    Propõe o retorno ao lirismo do movimento clássico.
(D)    Propõe o retorno do movimento romântico.
(E)    Propõe a criação de um novo lirismo.


Questão 5

Leia os fragmentos a seguir, extraídos, respectivamente, dos poemas “Profissão de fé”, de Olavo Bilac, e “Os sapos”, de Manuel Bandeira, e assinale a alternativa incorreta.

Fragmento 1

(...)
Invejo o ourives quando escrevo:
imito o amor
Com que ele, em ouro,
 o alto-relevo Faz de uma flor.
 (...)
Torce, aprimora, alteia, lima
A frase; e, enfim,
No verso de ouro engasta a rima,
Como um rubim.

Quero que a estrofe cristalina,
Dobrada ao jeito
Do ourives, saia da oficina
Sem um defeito.
(...)

Fragmento 2

Urra o sapo-boi:
- 'Meu pai foi rei' – 'Foi!'
- 'Não foi' – 'Foi!' -'Não foi!'

Brada um em assomo
O sapo-tanoeiro:
- 'A grande arte é como o lavor do joalheiro

Ou bem do estatutário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo'.

(A)    No poema de Olavo Bilac, o eu lírico compara o trabalho do poeta com o do ourives, professando a crença parnasiana de que o grande poema é resultado de um minucioso trabalho do poeta com as palavras, as quais devem ser cuidadosamente selecionadas e combinadas segundo uma lógica pré-estabelecida.
(B)    O poema de Manuel Bandeira, escrito em 1918 e lido em uma das noites da Semana de Arte Moderna, empreende uma intensa crítica aos poetas parnasianos que defendem uma linguagem excessivamente formal, prendem-se a regras pré-estabelecidas ligadas à metrificação, às rimas e aos temas clássicos.
(C)    O poema de Manuel Bandeira reforça a estética defendida no poema de Olavo Bilac. Pode-se observar isso no verso "A grande arte é como o lavor do joalheiro", o qual, no contexto em que está inserido, sintetiza a apologia parnasiana da forma.
(D)    Em "Os sapos", Manuel Bandeira põe em prática os ideais da estética modernista não apenas quando critica o modo de poetar dos parnasianos, mas também quando se vale da linguagem coloquial, da sintaxe simples e direta, além de versos livres e do tom leve e bem humorado.
(E)    Os textos de Olavo Bilac e de Manuel Bandeira expressam pontos de vista bastante diferentes no que se refere ao ofício do poeta. No poema deste último, o sapo-tanoeiro simboliza os parnasianos, cuja concepção poética é intensamente ironizada.

Questão 6 (Profkbrito 2015)

Momento num café – Manuel Bandeira

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta

No poema acima transcrito, Manuel Bandeira nos apresenta uma visão desencantada do mundo e da humanidade, evidenciada principalmente no verso:

(A)    “Quando o enterro passou”
(B)    “Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade”
(C)    “Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado”
(D)    “Estavam todos voltados para a vida”

Questão 7 (UFMG)

Assinale a alternativa que apresenta uma afirmação  INCORRETA:

(A)    A atitude do homem atento ao enterro reduplica a opinião do eu lírico sobre a relação vida/morte.
(B)    O poema expressa uma visão materialista e irônica do mundo ao inverter a relação tradicional entre a alma e o corpo.
(C)    Um dos componentes estruturantes da lírica de Bandeira, presente no poema, é a percepção linear dos elementos do mundo.
(D)    Um traço fundamental da lírica de Bandeira, presente no poema, é a abordagem de temas universais a partir de elementos do quotidiano.

Questão 8 (Profkbrito 2015)

No poema “momento num café”, os versos “E saudava a matéria que passava” e “Liberta para sempre da alma extinta” revelam:

(A)    o caráter prosaico da poesia de Manuel Bandeira.
(B)    O entendimento do autor de que a alma é imortal.
(C)    a visão da morte como o fim do corpo e da alma.
(D)    a compaixão do autor pelo sofrimento causado pela morte.

Questão 9 (Profkbrito 2015)

Leia o trecho e marque a alternativa que melhor interpreta este trecho

“Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.”

(A)    O poeta procura fixar esta palavra em nossa cabeça ou quer mostrar que naquelas cabeças presentes naquele café não havia espaço para a morte.
(B)    Todos os pensamentos  estavam concentrados na vida daquele que passava sendo levado no caixão.
(C)    O poeta percebe que há, entre os homens ali presentes, alguns que provavelmente não tiraram o chapéu de forma programada.
(D)    A repetição do termo vida é indício de uma tentativa mal sucedida de rima.

Questão 10 (Profkbrito 2015)

“Do rio... E esta saudade é boa como um sonho!
E esta saudade é um sonho... Evoco-te... Componho
O ambiente cuja luz os cabelos douram.”
Manuel Bandeira

Na estrofe acima, quantas orações temos?
(A)    3 orações;
(B)    4 orações;
(C)    5 orações;
(D)    6 orações.

Questão 11 (Profkbrito 2015)

Analise o trecho “(...) Componho O ambiente cuja luz os cabelos douram.”

(I)                  O verbo “douram”, por concordar com “cabelos” foi usado adequadamente nesta sentença.
(II)               O verbo “douram” não apresenta concordância adequada, uma vez que é a luz que doura os cabelos, e não o contrário.
(III)             A concordância inadequada revela a incapacidade dos autores modernistas em escrever de acordo com a norma padrão do português.
(IV)             A concordância foi ignorada, haja vista a liberdade modernista se aproximar da fala coloquial.

Estão corretos os itens:

(A)    I e II, apenas.
(B)    I e III, apenas.
(C)    II e III, apenas.
(D)    II e IV, apenas.
(E)    I e IV, apenas.

Questão 12 (Profkbrito 2015)

“Do rio... E esta saudade é boa como um sonho!
E esta saudade é um sonho... Evoco-te... Componho
O ambiente cuja luz os cabelos douram.”
Manuel Bandeira

A estrofe acima é composta por:
(A)    4 períodos: 3 simples e 1 composto.
(B)    4 períodos: 2 simples e 2 compostos
(C)    5 períodos simples.
(D)    2 períodos compostos.

Questão 13 (Profkbrito 2015)

Se fosse dor tudo na vida
Seria a morte o grande bem.”
Manuel Bandeira

O termo em destaque nos versos acima apresenta o mesmo valor morfossintático e semântico em:

(A)    “Que ao se mostrar às vezes boa, / Ela requinta em ser cruel...”
(B)    “Já não entendo a vida, e se mais a aprofundo, / Mais a descompreendo e não lhe acho sentido.”
(C)    “Morrem as rosas. Minhas pálpebras se molham.”
(D)    “Sobre a mesa, pétala a pétala se esfolham, / Morrem as rosas...”

Questão 14 (Profkbrito 2015)

Já não entendo a vida, e se mais a aprofundo,
Mais a descompreendo e não lhe acho sentido.”
Manuel Bandeira

Julgue os itens a seguir.

(I)                  O trecho sublinhado é uma oração coordenada assindética.
(II)               O trecho em negrito é uma oração condicional introduzida pela conjunção “se”.
(III)             O trecho em negrito é parte constituinte de uma oração proporcional.
(IV)             O trecho em itálico é uma oração coordenada sindética aditiva.

Estão corretos os itens:

(A)    I e II, apenas.
(B)    I e III, apenas.
(C)    II e III, apenas.
(D)    II e IV, apenas.
(E)    I e IV, apenas.

Questão 15 (Profkbrito 2015)

“Já não entendo a vida, e se mais a aprofundo,
Mais a descompreendo e não lhe acho sentido.”
Manuel Bandeira


(A)    Dos termos destacados, apenas o primeiro pode ser classificado como pronome.
(B)    O segundo e o terceiro “a” referem-se ao termo “mais” em cada uma das ocorrências.
(C)    A coesão referencial só não está adequada com o uso do termo “lhe”.
(D)    Dos termos destacados, “a” é artigo em todas as ocorrências e “lhe” é pronome.
(E)     Excetuando-se o primeiro “a”, os demais termos são pronomes e referem-se ao vocábulo “vida”.

Leia o texto a seguir para responder às questões 16, 17 e 18.

Cantadores do Nordeste

Anteontem, minha gente, 
 Fui juiz numa função 
De violeiros do Nordeste. 
Cantando em competição, 
Vi cantar Dimas Batista 
E Otacílio, seu irmão. 
Ouvi um tal de Ferreira, 
Ouvi um tal de João. 
Um, a quem faltava o braço, 
Tocava cuma só mão; 
Mas, como ele mesmo disse 
Cantando com perfeição, 
Para cantar afinado, 
Para cantar com paixão, 
A força não está no braço: 
Ela está no coração. 
Ou puxando uma sextilha 
Ou uma oitava em quadrão, 
Quer a rima fosse em inha
Quer a rima fosse em ão
Caíam rimas do céu, 
Saltavam rimas do chão! 
Tudo muito bem medido 
No galope do sertão. 
A Eneida estava boba; 
O Cavalcanti, bobão, 
O Lúcio, o Renato Almeida; 
Enfim, toda a Comissão. 
Saí dali convencido 
Que não sou poeta não; 
Que poeta é quem inventa 
Em boa improvisação, 
Como faz Dimas Batista 
E Otacílio, seu irmão; 
Como faz qualquer violeiro 
Bom cantador do sertão, 
A todos os quais, humilde, 
Mando a minha saudação. 

Manuel Bandeira
(Estrela da vida inteira, p.256-257)

Questão 16 (Profkbrito 2015)

O poema acima, que faz parte de Estrela da Tarde, de 1958, é exemplo do reaparecimento do metro popular na obra de Manuel Bandeira. Também apresenta influência da cultura popular os versos:

(A)    “Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos./
A vida inteira que podia ter sido e que não foi./
Tosse, tosse, tosse.”
(B)    “Levou tempo para cair fôlego./ Bambeava, tremia todo e mudava de cor./ A molecada da Rua do Sabão / Gritava com maldade:/ Cai cai balão!”
(C)    “Estou farto do lirismo comedido / Do lirismo bem comportado / Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente / protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor.”
(D)    “Quando a Indesejada das gentes chegar / (Não sei se dura ou caroável), / talvez eu tenha medo. / Talvez sorria, ou diga: / — Alô, iniludível!”

Questão 17 (Profkbrito 2015)

O poema “Cantadores do Nordeste”:

(A)    Reforça o estereótipo de que os cantadores são poetas de menor categoria que os modernistas, pois aqueles só fazem rima com “inha” ou com “ao”.
(B)    Utiliza a métrica tradicional e os elementos musicais da cantoria de viola para exaltar os cantadores nordestinos e sua rica poesia feita na hora, “de repente”.
(C)    Apresenta a incapacidade do poeta em escrever seus poemas com métrica tradicional, o que o fez escolher ser modernista.
(D)    Mostra um Manuel Bandeira descuidado com a gramática tradicional, pois escreve “Cuma”, “quadrão” e repete o “não” no verso “Que não sou poeta não”.

Questão 18 (Profkbrito 2015)

Em “Mas, como ele mesmo disse / Cantando com perfeição, / Para cantar afinado, / Para cantar com paixão, / A força não está no braço: / Ela está no coração.”, o termo destacado refere-se à palavra:

(A)    “perfeição”.
(B)    “paixão”.
(C)    “coração”.
(D)    “força”.

Gabarito:
1.a; 2.b; 3.b; 4.e; 5.c; 6.b; 7.d; 8.c; 9.a; 10.c; 11.e; 12.a; 13.b; 14.b; 15.e; 16.b; 17.b; 18.d.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Poema: O beijo que não te dei.

Parque Nacional da Serra da Capivara: Pintura Rupestre " O Beijo"


O beijo que não te dei
Kleber Brito



“Meu amor,
Partirei logo cedo
rumo a uma grandiosa caçada.
Como não sei escrever,
haja vista ainda não ter
sido inventada a escrita,
deixarei gravado aqui,
nesta rocha,
o registro pictórico do meu sentimento.
Com ternura e afeto,
e antes que o tempo,
furtivo, passe
e nos esqueça,
um beijo do seu ‘selvagem’.

Atenciosamente,
"


terça-feira, 17 de setembro de 2013

O ar ardeu nas narinas


O ar ardeu nas narinas
Do arquétipo do homem primeiro,
Que estranhou tanta pureza atmosférica
E cuidou logo em descobrir o fogo,
Para incendiar a pureza das matas.

E nas noites mais frias do inverno
Prosear desenfreadamente, à luz da fogueira,
Contando causos medonhos

Para seus companheiros animais.

Kleber Brito

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

POEMA - Óleo sobre tela


Parais e não sabeis
Que a brisa lírica
Vos admoesta.
Andais e acreditais
Acabar o sopro morno
Que vos impulsiona.
Aprouve ao tempo
Converter-vos em mais
Um simples sema.
Figurais, monolítico,
Um espaço neutro
E, negativo, ostentais
Um sobreolhar ao
Olhar sobre o
Verde e azul das
Misturas, sobre os
Degradês do céu e mar,
Enamorados no motivo
Marítimo da obra
De minhas sujas mãos
Em óleo sobre tela.

Kleber Brito

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

POEMA - Poucas Rimas

Mote: Eu queria cantar o amor que sinto
           Mas você não me quer ouvir falar



Desde agora eu intento em meu recanto,

Esboçar nestes versos meu cantar.
Minha trova imperfeita vou falar,
Com palavras singelas, pois não minto.
Eu queria cantar o amor que sinto,
Mas você não me quer ouvir falar.


Comecei desde cedo lapidando,
As sextilhas no mote a preparar,
Daí vem sua imagem a completar,
Preenchendo a lacuna do recinto,
Eu queria cantar o amor que sinto,
Mas você não me quer ouvir falar.


Chego agora no meio do poema,
E me tomo ignoto a perguntar,
Onde é que minha mente foi parar?
Vou perder-me agora, isso eu pressinto,
Eu queria cantar o amor que sinto,
Mas você não me quer ouvir falar.


Finalizo estes versos derramados,
Pois a inspiração me vem faltar.
Tento enfim meu poema terminar,
Com um amor que em mim nunca é extinto,
Eu queria cantar o amor que sinto,
Mas você não me quer ouvir falar.


Kleber Brito

terça-feira, 30 de julho de 2013

POEMA - Ah, Doção!


Menino com fome, na rua, no tempo

Perdido no espaço nas eras que vêm.
Te espero, menino, e guardo comigo 
Um abraço.
Pra te esqueceres que não tens mãe, 
nem pai, nem ninguém, te trago meu amor.
Eu queria abraçar todas as crianças do mundo,
E saber o que Deus reserva pra elas.
Ou mesmo dizer-lhes: não chorem!
Eu estou aqui!


Kleber Brito

sábado, 27 de julho de 2013

FOLHAS DO LIVRO

À Walt Whitman
por sua rica poesia 




Um poema traduzido é uma mentira interpretada.

Não faz sentido desapropriar a rosa do seu cheiro

E impregnar a luz com sua substância odorífera.




Cada poema foi feito para ser lido em sua própria língua.

Não faz sentido tirar da maçã o seu sabor

E incorporá-lo à matéria sombria dos sonhos.




Um poema em outro signo é como a alma fora de seu corpo.

Não faz sentido a relva, tocada pelo vento,

Sentidos por tuas mãos, este conjunto tátil infinito,

Ser subtraída da matéria corpórea do desejo.




Tua terra, teu lar, tua vida, tua alma, ó poeta!

Essa relva que te cerca e te motiva a ir além

do óbvio e da linguagem: é tanto matéria tua

como composto da alma dos homens.

A poesia de existir, exista-se.

Revele-se, que se faça em sua própria terra,

Da mesma matéria infinita que compõe a linguagem.




Um poema lido em língua pátria é uma verdade absoluta

de sentir e do prazer verbal.

Faz sentido sair de si e invadir cada linha de matéria incompreensível

E viajar na náusea de uma leitura intangível.

E replicar-se num mundo inexplicável, de uma estética sublime

E impecável, num evento orgíaco das palavras

No baú que contém a tua mente verdadeira.







Kleber Brito

quarta-feira, 24 de julho de 2013

LEITURA - CORDEL - A peleja da Carta com o E-mail, de Janduhi Dantas


Um gênero textual muito precioso para mim é o Cordel. E por isso considero importante estar levando o aluno a conhecer e a desenvolver gosto pela literatura popular nordestina. Dito isto, quero compartilhar com meus colegas professores de língua portuguesa este arquivo em PDF com um cordel muito interessante que trata de dois gêneros textuais sempre presentes nos livros didáticos: a carta e o e-mail.

São inicialmente "três coelhos com uma cajadada" apenas. Pode-se abordar a literatura de cordel em sala de aula, sua leitura, as características do gênero, a linguagem, e em seguida introduzir dois outros gêneros, suas respectivas características e culminar na produção de alguma carta ou e-mail cujo assunto gire em torno das impressões que o leitor teve sobre a literatura de cordel, por exemplo.

Enfim, baixe o arquivo, querido colega, e monte o cordel para seus alunos ou com eles. Se você tem 48 alunos numa turma de 1º ano médio como eu, basta imprimir a primeira página 24 vezes e as demais páginas 48 vezes (lembrando de imprimir "frente e verso"). Dobre as páginas igualmente e, usando um estilete ou guilhotina, corte-as bem ao meio. Você pode cortar com tesoura mesmo, mas vai demorar bastante. Claro que você pode pedir para aquele seu colega ou sua colega que trabalha na papelaria para cortar pra você.

Feito isso, é só juntar as páginas na sequência correta e grampear.

Boa aula e boa diversão.



sábado, 6 de julho de 2013

Atividade - A Morte de Nanã, de Patativa do Assaré


Olá, queridos amigos professores. Segue abaixo um dos poemas que mais me emocionam quando leio ou recito em minhas aulas. Disponibilizo também uma atividade e recomendo que, em suas aulas, assistam ao vídeo do poeta Patativa do Assaré recitando o poema. A atividade é bem simples, não exigindo muito esforço por parte dos alunos para respondê-la. Serve apenas como um aquecimento para uma atividade mais complexa.

VÍDEO



POEMA

Eu vou contá uma histora
Que eu não sei como comece,
Pruquê meu coração chora,
A dô no meu peito cresce,
Omenta o meu sofrimento
E fico uvindo o lamento
De minha arma dilurida,
Pois é bem triste a sentença
De quem perdeu na isistença
O que mais amou na vida.

Já tou velho, acabrunhado,
Mas inriba dêste chão,
Fui o mais afortunado
De todos fios de Adão.
Dentro da minha pobreza,
Eu tinha grande riqueza:
Era uma querida fia,
Porém morreu muito nova.
Foi sacudida na cova
Com seis ano e doze dia.

Morreu na sua inocença
Aquêle anjo incantadô,
Que foi na sua isistença,
A cura da minha dô
E a vida do meu vivê.
Eu bejava, com prazê,
Todo dia, demenhã,
Sua face pura e bela.
Era Ana o nome dela,
Mas, eu chamava Nanã.

Nanã tinha mais primô
De que as mais bonita jóia,
Mais linda do que as fulô
De un tá de Jardim de Tróia
Que fala o dotô Conrado.
Seu cabelo cachiado,
Prêto da cô de viludo.
Nanã era meu tesôro,
Meu diamante, meu ôro,
Meu anjo, meu céu, meu tudo,

Pelo terrêro corria,
Sempre sirrindo e cantando,
Era lutrida e sadia,
Pois, mesmo se alimentando
Com feijão, mio e farinha,
Era gorda, bem gordinha
Minha querida Nanã,
Tão gorda que reluzia.
O seu corpo parecia
Uma banana-maçã.

Todo dia, todo dia,
Quando eu vortava da roça,
Na mais compreta alegria,
Dento da minha paioça
Minha Nanã eu achava.
Por isso, eu não invejava
Riqueza nem posição
Dos grandes dêste país,
Pois eu era o mais feliz
De todos fio de Adão.

Mas, neste mundo de Cristo,
Pobre não pode gozá.
Eu, quando me lembro disto,
Dá vontade de chorá.
Quando há sêca no sertão,
Ao pobre farta feijão,
Farinha, mio e arrôis.
Foi isso que aconteceu:
A minha fia morreu,
Na sêca de trinta e dois.

Vendo que não tinha inverno,
O meu patrão, um tirano,
Sem temê Deus nem o inferno,
Me deixou no desengano,
Sem nada mais me arranjá.
Teve que se alimentá
Minha querida Nanã,
No mais penoso matrato,
Comendo caça do mato
E goma de mucunã.

E com as braba comida,
Aquela pobre inocente
Foi mudando a sua vida,
Foi ficando deferente.
Não sirria nem brincava,
Bem pôco se alimentava
E inquanto a sua gordura
No corpo diminuía,
No meu coração crescia
A minha grande tortura.

Quando ela via o angu,
Todo dia demenhã,
Ou mesmo o rôxo beju
De goma de mucanã,
Sem a comida querê,
Oiava pro dicumê,
Depois oiava pra mim
E o meu coração doía,
Quando Nanã me dizia:
Papai, ô comida ruim!

Se passava o dia intêro
E a coitada não comia,
Não brincava no terrêro
Nem cantava de alegria,
Pois a farta de alimento
Acaba o contentamento,
Tudo destrói e consome.
Não saía da tipóia
A minha adorada jóia,
Infraquecida de fome.

Daqueles óio tão lindo
Eu via a luz se apagando
E tudo diminuindo.
Quando eu tava reparando
Os oínho da criança,
Vinha na minha lembrança
Um candiêro vazio
Com uma tochinha acesa
Representando a tristeza
Bem na ponta do pavio.

E, numa noite de agosto,
Noite escura e sem luá,
Eu vi crescê meu desgôsto,
Eu vi crescê meu pená.
Naquela noite, a criança
Se achava sem esperança
E quando vêi o rompê
Da linha e risonha orora,
Fartava bem pôcas hora
Pra minha Nanã morrê.

Por ali ninguém chegou,
Ninguém reparou nem viu
Aquela cena de horrô
Que o rico nunca assistiu,
Só eu a minha muié,
Que ainda cheia de fé
Rezava pro Pai Eterno,
Dando suspiro maguado
Com o rosto seu moiado
Das água do amó materno.

E, enquanto nós assistia
A morte da pequenina,
Na menhã daquele dia,
Veio um bando de campina,
De canaro e sabiá
E começaro a cantá
Um hino santificado,
Na copa de um cajuêro
Que havia bem no terrêro
Do meu rancho esburacado.

Aqueles passo cantava,
Em lovô da despedida,
Vendo que Nanã dexava
As misera desta vida.
Pois não havia ricurso,
Já tava fugindo os purso.
Naquele estado misquinho,
Ia apressando o cansaço,
Seguido pelo compasso
Da musga dos passarinho.

Na sua pequena bôca
Eu via os laibo tremendo
E, naquela afrição lôca,
Ela também conhecendo
Que a vida tava no fim,
Foi regalando pra mim
Os tristes oínho seu,
Fêz um esfôrço ai, ai, ai,
E disse: "Abença, papai!"
Fechó os óio e morreu.

Enquanto finalizava
Seu momento derradêro,
Lá fora os passo cantava,
Na copa do cajuêro.
Em vez de gemido e choro,
As ave cantava em coro.
Era o bendito prefeito
Da morte do meu anjinho.
Nunca mais os passarinho
Cantaro daquele jeito.

Nanã foi, naquele dia,
A Jesus mostrá seu riso
E omentá mais a quantia
Dos anjo do Paraíso.
Na minha maginação,
Caço e não acho expressão
Pra dizê como é que fico.
Pensando naquele adeus
E a curpa não é de Deus,
A curpa é dos home rico.

Morreu no maió matrato
Meu amô lindo e mimoso.
Meu patrão, aquele ingrato,
Foi o maior criminoso
Foi o maió assassino.
O meu anjo pequenino
Foi sacudido no fundo
Do mais pobre cimitero
E eu hoje me considero
O mais pobre dêste mundo.

Soluçando, pensativo,
Sem consôlo e sem assunto,
Eu sinto que inda tou vivo,
Mas meu jeito é de defunto.
Invorvido na tristeza,
No meu rancho de pobreza,
Tôda vez que eu vou rezá,
Com meus juêio no chão,
Peço em minhas oração:
Nanã, venha me buscá!



ATIVIDADE

1.       Qual o tipo textual predominante no texto?

2.       A que gênero textual o texto pertence? (É interessante perguntar aos alunos se o texto é apenas um poema extenso ou recebe outra classificação. Faça-os perceber que os poemas podem apresentar classificações diferentes, o que os enquadra em gêneros diferentes: ode, cantiga, cordel, soneto, haicai)

3.       Com relação ao gênero literário, em qual gênero podemos enquadrar o texto? Lírico, narrativo ou dramático?

4.       Quais as características estruturais do texto em estudo? (Como o texto é organizado. Faça a versificação. Mostre as rimas, separe as sílabas poéticas com os alunos, conte os versos e as estrofes e peça que os alunos montem a resposta em um parágrafo bem estruturado).

5.       Em que lugar a história ocorre? Em que tempo ela se passa? Quais as “personagens”? Quem é o eu lírico?

6.       Resuma, com suas próprias palavras, o enredo do texto lido. (Peça para que os alunos sintetizem em um ou dois parágrafos a história do texto).

7.       Como era a menina Ana (quais as características dela - físicas e psicológicas) antes e depois da “sêca de trinta e dois”? Em que versos encontramos tais descrições? (Se preferir, peça que os alunos montem uma tabela com as características).

8.       A quem o pai de Ana atribui a culpa da morte dela? Por qual motivo? (Procure demonstrar a cadeia de acontecimentos que, na visão do eu lírico, provocaram a morte da menina. Aproveite para mostrar aos alunos as relações de causa e consequência).

9.       Como, provavelmente, ficou a família, após a morte da menina? Exemplifique com passagens do texto. (Promova uma reflexão sobre o impacto da morte da menina, ou mesmo da morte, em sentido mais amplo, nas pessoas próximas ao ente falecido).

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Poema: TROVA DE SETE CARA

Desde que eu me entendo por leitor, gosto de ler e reler os poemas de Carlos Drummond de Andrade. Já li a obra poética dele mais de uma vez e sempre redescubro um poema que parece que eu nunca li. A poesia faz isso com a gente.
Foi então que, depois de ter lido algumas paródias feitas por poetas como Manuel Bandeira (só pra citar um grande expoente), resolvi tentar fazer uma paródia com o "Poema de Sete Faces", de Drummond.




POEMA DE SETE FACES - Carlos Drummond de Andrade
Do livro Alguma poesia (1930)

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.


TROVA DAS SETE CARA
Kleber Brito

Quando nasci, uma visage
dessas que véve na sombra
botou os ói em riba deu
e diche: “Vai fii duma égua,
Sê coqué coisa na vida!”

As casa zóia os zomi
Que corre atrai dar mulé
A tarde tarvez fosse cinza
Não houvesse tanta estiage.

O carro de boi passa chei de muleque mucegado
As perna cheia de firida
Pra que tanto minino, diacho, pergunta meu coração.
Posso fazê o quê?
Só espiá a vida passá.

O homi adetrais do bigode
É séro, omilde e parrudo.
Acabrunhado.
Quage num tem amigo
O homi adetrais dos ócru e do bigode.

Valei-me, Nossinhô. Caus’di quê me abandonô
Se já sabia que eu num sô divino
E qu’ eu sou fraco feito a gôta.

Mundo mundo mundo
Cadê o cumpade Raimundo?
Tá fazeno rima e cumeno feijão,
Mundo, mundo mundo
Tô cum pobrema de coração.

Eu não devia de dizê
Már essa lua
már essa cachaça

deixa o cabra mole feit’a mulesta.